Depois do post: Sexo, Drogas e Rock and Roll, recebi alguns coments que vocês devem ter lido e alguns mails direto na caixa de mensagens. Gostaria de mencionar que de maneira alguma falei que as drogas fazem bem para alguém. Mas como ex-viciado não posso me livrar de escrever que sim, as sensações são maravilhosas e momentâneas, afinal se não houvesse sensações tão boas, as pessoas não estariam aí, viciadas. Mas devo ter esquecido de realçar os malefícios, que são muitos e para a vida toda.Bom, como está relatado comecei muito cedo, meio que para me enturmar. Gordinho, tímido, carente, a cocaína era meu refúgio e me dava a sensação de poder que julgava precisar. Enfim o auge da minha dependência foi dos 19 aos 21 anos. Eu cheirava praticamente todos os dias. E minha vida começou a afundar. Primeiro eu comecei roubando dinheiro da carteira de meu pai. E de repente comecei a pegar dinheiro da carteira de todos da minha casa e depois a minha volta. As pessoas pararam de confiar em mim. Como meu pai e minha mãe estavam sempre viajando, a mulher que foi minha babá era a pessoa que tomava conta de mim. Cheguei a bater nela para pegar dinheiro. E assim fui levando. Anos antes cheguei a ser expulso do colégio que estudava, pois chegava cheirado em muitas das aulas e era considerado péssima influência para os alunos. Foi aí que perdi a maioria de meus amigos e comecei a andar com uns caras ainda mais barra pesadas. E com estes caras cheguei a ajudar a furtar rádios de alguns carros. Fora os roubos em supermercados onde enfiava tudo que podia dentro do moleton. Depois entrei para faculdade e cursei duas ao mesmo tempo. Geografia e Jornalismo. Na minha cabeça a farinha era o que me impulsionava para ficar a noite toda acordado estudando para as provas e fazendo trabalhos. Nesta época meus pais mudaram de cidade e minha "babá" morreu. Briguei com uma irmã que morava comigo e passei a morar sozinho. Foi o auge das drogas. E foi quando me piquei pela primeira vez. Não comia, gastava tudo em farinha. Larguei a faculdade de jornalismo. Esta época foi a pior porque cheguei a passar fome. Um dia na casa de um amigo meu, comecei a passar muito mal. Coração batendo rápido demais, dor muito forte no peito. Comecei a me bater e nada me segurava. Achava que estava morrendo. Chegou ambulância, estava tudo normal. E isto começou a se repetir com uma certa frequencia. Fui a muitos médicos até que chegaram a conclusão que estava com síndrome do pânico. Não me esqueço do médico dizendo a seguinte frase: "estas doenças de cabeça todo mundo tem ali guardadinha, mas tem um plug que faz com que elas apareçam." Na hora pensei, caralho, é a farinha. Comecei a dividir o apartamento com um rapaz, tinha medo de ficar sozinho, e como não tinha dinheiro para comer, comia toda a comida do cara. Enfim, larguei a facul de geografia também e comecei a dever ao patrão. Lembro-me que na época devia R$2000,00. O traficante ia direto me cobrar e eu fugindo. Meu pai tinha me arrumado um estágio, mas como tinha saído das faculdades, fui mandado embora. E quando o traficante ameaçou o rapaz que dividia apê comigo, ele ligou para meu pai e vieram me buscar. Saí da cidade que mais amava no mundo, deixei todos os meus amigos e fui morar na cidade dos meus pais. Sim, meu pai pagou a dívida. Daí no meu primeiro dia na cidade dos pais, sumi de noite. Na primeira noite já tinha encontrado a "minha nova turminha da farinhagem" e fiquei dois dias sumido. Meu pai me arrumou um emprego e passei no vestibular para arquitetura. Trabalhava num clube e ia cheiradaço para lá. Meus três primeiro salários, foram para pagar o dinheiro do traficante a meu pai. E de repente, comecei a roubar dinheiro da tesouraria do clube. Foi neste período que abandonei uma faculdade pela terceira vez. O gerente descobriu os roubos, foi até minha casa e contou para meu pai. Foi aí que ele decidiu me internar. Nesta época já tinho namorado o cara da maior pica do mundo e ainda estava com a garota. Fiquei quatro meses internado, num lugar horrível onde se rezava o dia inteiro, mas foi aquele lugar que me salvou. Meu pai naquela mesma época descobriu que tinha enfizema e o médico deu um mês de vida para ele. Chorei como nunca tinha chorado, fiquei desesperado. Meu Deus, nunca havia conversado com meu pai. O homem que mais amava no mundo estava quase morrendo e graças a cocaína, não sabia nada de mim, a não ser que eu largava os estudos, roubava minha família e era um péssimo elemento. Então eu comecei a rezar. Rezei para ele não morrer e eu ter tempo de provar para ele, que o Paulo que ele criou com o maior amor do mundo, que colocou na melhor escola do estado, que sempre foi o mais inteligente e simpático da turma, iria se tornar um homem exemplar. E desde aquele dia, pouco tempo depois que saí da clínica, nunca mais dei um tiro ou um pico que fosse. E me tornei o careta. E quanto mais careta ficava, mais trabalhava também. Ia mostrar para meu pai que tinha me tornado um adulto responsável e bem sucedido. E é assim até hoje. Trabalho feito um louco, tenho que provar a cada dia que sou um homem melhor. Ainda bem que meu pai é vivo ainda, e embora respire com ajuda do aparelho oxigênio, tem muito orgulho do que sou. Felizmente, eu soube no finalzinho, usar as drogas a meu favor. Pude mostrar a todos que estavam a minha volta que poderia ser muito mais feliz sem elas. E o sou. Tive que reconquistar todos os dias a confiança de minha família. E o fiz. O meu problema com as drogas sempre foi mais forte e difícil de suportar do que a minha sexualidade. Minha sexualidade, ou homossexualidade, nunca foi problema, tiro de letra. E ainda divido aqui com vocês.